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quinta-feira, 25 de maio de 2017

Nº 69



A RAZÃO PARA CRER QUE OS DONS REVELACIONAIS CONTINUAM
por Don Codling

Reconhecemos desde o princípio que não existe nenhuma declaração explícita de que tais dons revelacionais continuam. Nem deveríamos esperar por alguma. Exigir uma declaração assim significaria deslocar o ônus da prova ilegitimamente. Ninguém nega que nos dias dos apóstolos tais dons foram amplamente concedidos. Isso se iniciou assim, e a menos que uma clara declaração negativa nos seja dada por Deus, nós estamos prestes a presumir que tais dons continuam. Não basta insistir no fato de que a Bíblia é uma história da redenção e que embora essas coisas se sucederam na Bíblia elas não continuarão se sucedendo no decurso da vida da igreja. É necessário demonstrar que tais dons não são como a Ceia do Senhor ou a moralidade bíblica, e que eles estavam tão ligados a história da redenção ao ponto de se encerrarem com ela. Os argumentos que nós consideramos até agora tentam fazer isto, mas falham. O argumento mais forte para a continuação destes dons revelacionais é a ausência de uma clara declaração negativa, de uma clara declaração dada por Deus de que tais dons se cessaram.

Ademais, não deveríamos ter a expectativa de que tais dons fossem distribuídos de maneira uniforme em todas as épocas. É óbvio que nenhum deles é uma dotação de todos os cristãos (1Co. 12:29-30). Não houve profetas reconhecidos em três séculos antes de Cristo. Houve períodos na história bíblica em que um vasto número de milagres foram vistos, enquanto em outros tais manifestações foram dificilmente reconhecidas. Deus concedeu os seus dons de acordo com a necessidade que ele julgou ser melhor. Se alguns deles desapareceram por um momento, isto ainda não implica na conclusão de que eles nunca mais seriam concedidos novamente.

Contudo, há um certo número de indicações positivas para que nós possamos esperar pela continuidade de tais dons. A profecia de Joel, que foi cumprida no Pentecostes, é uma delas:


E há de ser que, depois, derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu Espírito. E mostrarei prodígios no céu, e na terra, sangue e fogo, e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. E há de ser que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém haverá livramento, assim como disse o Senhor, e entre os sobreviventes, aqueles que o Senhor chamar (Joel 2:28-32).

Joel não predisse sobre uma repentina e derradeira onda de profecias seguida por um silêncio profético. Ele predisse sobre um tempo em que Deus derramaria do seu Espírito e concederia dons de profecia, sobre um tempo de provações e dificuldades “antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”, sobre um tempo em que aqueles que invocarem o nome de Cristo seriam salvos. E uma vez que isso esteja explicitamente conectado ao retorno de Cristo, seria necessário fornecer fortes razões para limitar isso a um curto período após a sua primeira vinda.

Jesus toma esse mesmo impulso em João 14:12: “Na verdade, na verdade vos digo, que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai”. Ele não disse que apenas os apóstolos e alguns outros daquela geração iriam fazer maravilhas, ele disse que aquele que cresse nele iria fazer maravilhas.

As implicações disto podem ser vistas na pergunta que Paulo fez aos discípulos efésios do batismo de João: “Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?” (Atos 19:2). Evidentemente, Paulo esperava ver alguma manifestação da presença do Espírito naqueles que seguem a Cristo. Ele não recebeu nenhuma revelação de que aqueles discípulos estavam deficientes, mas, ao investigar, ele viu que havia algo de errado. Quando ele procurou saber se eles conheciam algo do Espírito Santo, ele os dirigiu até Cristo! O resultado foi que eles receberam Cristo, foram batizados em Cristo, e falaram em línguas e profetizaram. Paulo esperava que todo cristão ou pelo menos todo grupo de cristãos pudesse demonstrar alguma manifestação visível da presença do Espírito, algum dom visível do Espírito Santo.

Além disto, como nós temos visto até aqui, a leitura natural de 1 Coríntios 13:8-12 indica que a profecia se encerrará quando Cristo retornar. Alguém poderia entender que a profecia se encerraria em algum tempo antes do retorno de Cristo, mas não há nenhuma razão para assumir isso. Assumindo que o propósito desse texto é estabelecer que o “agora conheço em parte”[1] deverá ser substituído pela clara visão de Deus no fim, a simples leitura disto implica que tais dons continuarão até que venha o fim, pelo menos a princípio.

Então, temos as duas testemunhas de Apocalipse 11. Alguns acreditam que elas sejam dois líderes que deverão aparecer antes do retorno imediato de Cristo. Essa visão é comumente mantida pela maioria dos cessacionistas, que veem nisso um símbolo da voz da Igreja na presente era como julgamento – a era que vai desde o Pentecostes até o retorno de Cristo[2]. Mas estas testemunhas profetizam! Elas não são descritas como pregadores, mas como profetas. Novamente, por qualquer que seja a interpretação aqui, a simples indicação é que a profecia deve continuar até o tempo em que Cristo retornar.

Em consideração a essa questão, nós precisamos estar conscientes que as distinções que fazemos entre dons ordinários e extraordinários, ou dons revelacionais e não revelacionais, é artificial. A Bíblia não faz tais distinções. Ela coloca os mestres entre os profetas e os operadores de milagres, e o dom de governar entre os dons de curar e de falar em línguas (1 Coríntios 12:28). Qualquer um concorda que tais dons como ensino e socorro continuam. O que implica que todos os dons devem continuar, a menos que haja uma clara base bíblica que negue isso, como os requisitos em Atos 1 sobre um apóstolo oficial ser uma testemunha da ressurreição de Cristo. Aquela qualificação limitou o ofício apostólico à geração que viu Jesus em carne. Desse modo, o pressuposto é que os dons de profecia e cura continuam assim como os dons de ensino e governo continuam.

Os dons do Espírito são biblicamente associados com o ofício de Cristo como Rei. Em Efésios 4:8 nós lemos que, “quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativo muitos prisioneiros, e deu dons aos homens”. Paulo nos informa explicitamente quais tipos de dons ele tem em mente após três versículos: são os dons que devem equipar as pessoas como apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres (Efésios 4:11-12). A doação destes dons está explicitamente ligada à sua posse de seu trono no Céu. A mesma ligação foi feita quando ele comissionou os doze, e depois os setenta, em suas primeiras viagens missionárias. Mateus 10:7-8 diz, “por onde forem, preguem esta mensagem: ‘O Reino dos céus está próximo’. Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça; deem também de graça”. Em Lucas 10:9, os setenta são semelhantemente ordenados: “Curem os doentes que ali houver e digam-lhes: ‘O Reino de Deus está próximo de vocês’”. O Reino de Deus é associado com curas e outros milagres. Eles são dons de Cristo como nosso Rei, o que implica que eles devem continuar. Ele não cessou de ser Rei, e nem mesmo existe alguma sugestão na Bíblia de que estes dons estariam reservados à celebração da sua “coroação” real. De fato, todos concordam que os dons “ordinários” continuarão enquanto o nosso Rei reinar. O nosso Rei pode fazer o que bem entender, mas os seus súditos não podem presumir que ele deixou de dar alguns dos seus dons sem nos dizer.

A ordenança “procurai com zelo os dons espirituais” (1 Coríntios 14:1) carrega o pressuposto de que esses dons continuam. Isso é ecoado em 1 Coríntios 12:31, “procurai com zelo os melhores dons”, e em 1 Coríntios 14:39, “procurai, com zelo, profetizar”. Um princípio fundamental da interpretação bíblica é que o que foi escrito foi escrito para o nosso aprendizado (Rm.15:4; 1Co.10:11). Tais ordenanças não são apenas uma parte interessante da história, mas estão vinculadas à todo o povo de Deus, a menos que haja alguma razão clara para limitá-las. Os verbos estão todos no imperativo presente, implicando que nós devemos continuar a desejar esses dons espirituais. Esta implicação temporal no grego reforça a pressuposição de que estes dons continuam e devem ser desejados pelo povo de Deus.

Nós somos ordenados a provar os espíritos, para ver se ele vem da parte de Deus. Vamos nos concentrar nos meios que nos foram dados para fazer depois. Mas o que a ordenança em si sugere é que haverá algumas manifestações que são da parte de Deus, assim como outras não serão.

Pode haver algum problema se tais dons forem ignorados? Sim. Houve problemas e haverá problemas. Por isso, Deus nos instruiu a provar os espíritos, e não proibi-los. Isso está explícito em 1 Coríntios 14:39: “Não proibais o falar línguas”[3]. Quando alguém alega estar falando em línguas ou profetizando, a resposta bíblica não é lhe dizer, “você não pode fazer isso!” Os cessacionistas têm me dito: “Nós não estamos proibindo as pessoas de falar em línguas; nós estamos proibindo elas de falarem o que não seriam as línguas bíblicas, porque as línguas cessaram”. Tais declarações trivializam o ensino da Bíblia. A ordenança sobre provar os espíritos implica num exercício contínuo de tais dons, como a profecia. A advertência de Cristo de que, se possível, os falsos profetas e os falsos milagres enganariam até mesmo os escolhidos, implica na continuação da verdadeira profecia e dos verdadeiros milagres. Essas questões não devem ser tomadas levianamente.



Notas:
[1] Richard B. Gafin, Jr., “A cessacionist view”, Are miraculous gifts today? (Grands Rapids: Zondervan, 1996), p.55.
[2] Como entende William Hendriksen, em Mais Do Que Vencedores. São Paulo: Cultura Cristã, 1987
[3] Reformed Prebyterian Church, Evangelical Synod. Minutes of the 149th General Synod (Maio, de 1971), p.96. “...Observemos cuidadosamente que Paulo nos diz para não proibirmos falar em línguas. Certamente, isso quer dizer tanto publicamente como particular.=mente. Nós não temos autoridade espiritual (v.36-40) para proibir as línguas, mas apenas para limitar a publicidade delas segundo os padrões estabelecidos por Paulo” (v.27-28).


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Extraído de:
CODLING, Don. Sola Scriptura and the Revelatory Gifts. Washington: Sentinel Press, 2005, p.115-119.

Traduzido por: Dione Cândido Jr.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Nº 49



A ESCRITURA NÃO LIMITA A FINALIDADE DOS DONS DE REVELAÇÃO À CONSTRUÇÃO DA FUNDAÇÃO
por Don Codling

Para chegar a conclusões sobre o caráter fundacional dos dons, será necessário examinar as passagens que têm sido tomadas para ensinar que eles são fundacionais, ou seja, Efésios 2:19-22 e Atos 1:6-8, 21-22. Vamos olhar também porções de 1Coríntios 14, que salientam a finalidade dos dons (edificação e culto), que podem ter valor fundacional mas também têm valor contínuo para além do período de fundação.

Efésios 2:20 fala dos gentios “... edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular”. Aqui há uma clara evidência ao trabalho de ambos, apóstolos e profetas, funcionando como elementos caracteristicamente fundacionais. Mas a fundação propriamente dita deve ser entendida como Cristo (1Co. 3:11), a pedra angular. A fundação foi estabelecida sim pelos apóstolos e profetas, mas quando em seu ministério eles deram testemunho de Cristo e de sua obra salvífica. Ao afirmar que o fundamento é Cristo, toda revelação de Cristo é certamente incluída, o que significa que a doutrina apostólica é parte dessa fundação[1]. O imediato significado dos “profetas” refere-se aos do Antigo Testamento, como Paulo vinculando os líderes religiosos e despenseiros da palavra de Deus da antiga e nova alianças, assim como foram comparados os períodos da antiga e nova alianças, e a posição dos gentios em ambos. No entanto, a progressão do pensamento a partir de 2:20 nos traz para a mesma combinação de apóstolos e profetas em 3:5 e 4:11, em ambos os casos os profetas em questão são os da Igreja do Novo Testamento. Assim, o contexto implica que em 2:20 os profetas também incluem aqueles do Novo Testamento, embora não necessariamente para substituição dos profetas veterotestamentários. Isso leva à conclusão assegurada de que o trabalho de pelo menos dois dos dons de revelação é fundacional.

Mas já foi visto que Hebreus 2:1-4 fala de testemunhas oculares sendo confirmadas pela operação de milagres. Um vez que os apóstolos são a principal parte do corpo de testemunhas oculares, isto conecta imediatamente os sinais, prodígios e milagres ao trabalho de fundação. Além disso, 1Coríntios 14:5 mostra que as línguas interpretadas são equivalentes a profecia. Neste sentido é sugerido que as línguas interpretadas também tiveram um papel fundacional. Na verdade é possível que todos os dons de revelação tenham tido um papel fundacional, embora seja certeza que apenas os apóstolos e profetas tinham esse papel nesse ponto. Os outros dons têm sido associados aos apóstolos e profetas, e não para o trabalho de fundação.

Se for demonstrado que todo o trabalho dos apóstolos e profetas consistia no estabelecimento de um fundamento, então todos os dons devem ter um papel fundacional. Se não puder ser demonstrado que toda a obra dos apóstolos e profetas foi fundacional, então não pode ser comprovado que os outros dons têm qualquer papel fundacional. Mas será que Efésios 2:20 não mostra que toda a obra dos apóstolos e profetas foi fundacional? Não. O texto apenas declare que os apóstolos e profetas estabeleceram uma fundação sobre a qual os gentios foram construídos. Eles também podem ter feito muitas outras coisas no seu serviço a Cristo, sem a menos transgressão deste texto. Mas há algo que possa ser adicionado à fundação que está posta quando esse fundamento é Cristo?:

O que de fato se deva adicionar a Cristo, a encarnação de toda verdade? A Igreja é edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas (Efésios 2:20). Mas os carismáticos parecem acreditar que muita coisa não dita foi deixada pelos apóstolos. O fundamento da verdade deve ser ampliado se a Igreja florescer, dizem-nos.[2]

Chantry está correto quando insiste que a fundação do ensinamento apostólico foi firmada de uma vez por todas. Efésios 2:20 certamente implica nesta verdade. No entanto, o versículo vinte e um vai falar de um crescimento contínuo ao invés de uma estagnação definida em nível de fundação. Todo o edifício está crescendo em Cristo, e ele não é apenas a fundação, mas também a pedra angular. Ele está envolvido e todo o edifício fortalecendo-o e sustentando-o. Esse prédio não cresce apenas através da adição dos remidos dia após dia e assim como doutrina é englobada na fundação também é englobada no crescimento. Cada parte desse edifício, cada cristão propriamente dito, está crescendo dia a dia em Cristo e isso inclui o crescimento no entendimento, bem como o crescimento na santificação[3]. A fundação não pode ser expandida, mas a superestrutura deve crescer. E se tal crescimento é em Cristo como Paulo descreve, não é nenhuma desonra para Cristo sugerir um crescimento no conhecimento de Deus edificado sobre a fundação, mas não necessariamente dedutível a partir dele. O que isso significa na prática, hoje, é que esta passagem não proíbe (ou apoia) a continuação do exercício dos dons de revelação, desde que eles não sejam colocados como adições à fundação, ou seja, às Escrituras canônicas.

Outra passagem indicando que os dons de revelação têm um papel fundacional é Atos 1. Nos versículos de seis a oito, quando os apóstolos perguntaram sobre a vinda do reino, foram orientados a aguardar a vinda do Espírito. Não lhes foi dada uma data para o restabelecimento do reino, mas foi-lhes dito que seriam testemunhas do poder do Espírito. É evidente que este testemunho em poder tem seu papel no trabalho da fundação do reino. Em seguida, os dons que os apóstolos receberam no Pentecostes foram para sua obra de fundação. Eles eram as testemunhas oculares autorizadas, embaixadores oficiais do rei a fim de estabelecer os fundamentos de seu domínio. O papel deles era, no mínimo, primeiramente fundacional.

Por conseguinte, sabemos que Matias foi escolhido para substituir Judas com o propósito de preencher aquele rol de testemunhas oficiais (At. 1:15ss). Por outro lado, Deus também separou Paulo especialmente para o ministério entre os gentios. Além de Matias e Paulo, nenhum outro foi escolhido, e a morte de João sinalizou o desaparecimento do apostolado deste mundo. No entanto, isso não implica concluir necessariamente que os dons associados aos apóstolos cessaram. Tais dons também tiveram efeitos para além de sua utilização na obra de fundação dos apóstolos. Esta passagem, então define o ofício apostólico como conectado ao período de fundação do reino tão intimamente que a função terminou com o fim desse período. Entretanto, a mesma definição não pode ser aplicada aos outros dons de revelação, e assim não subsidia qualquer razão para concluir que tenham cessado.

1 Coríntios 14 demonstra positivamente que outros dons têm finalidades não necessariamente fundacionais. O primeiro versículo ajuda a apoiar a distinção que tem sido sugerida acima, ou seja, a diferenciação entre o apostolado e os outros dons. É fato também que os coríntios foram orientados a buscar os dons espirituais, especialmente o dom de profecia. Na lista ordenada em 1 Coríntios 12:28, a profecia foi o segundo dom. O fato de os coríntios estarem buscando especialmente por isto, em vez do apostolado, é indicativo do fato de que a função apostólica foi limitada de forma que a profecia não foi. Isto não prova que os profetas continuaram para além da primeira geração, mas faz com que uma linha divisória muito tênue permita isso. Os apóstolos foram limitados a um seleto grupo que teve de desaparecer. Se todos os coríntios poderiam ser encorajados a aspirar pelo dom da profecia, então não havia motivo inerente ao dom que exigiria seu desaparecimento.

Os primeiros vinte e seis versículos de 1 Coríntios 14 enfatizam repetidamente que um dos propósitos dos dons é a edificação. Esta é a verdade indiscutível da profecia, como é explicitamente declarado nos versículos três, quatro e cinco, e implicitamente na discussão envolvendo grande parte do restante do capítulo. as houve controvérsia sobre as línguas são sempre instrumentos de edificação. Por exemplo, G. Omerly argumentou que elas não são para oração a Deus e nem primariamente estabelecidas para uso privado e edificação particular[4]. As línguas ainda não interpretadas são explicitamente descritas como edificando apenas quem fala, em vez de a igreja (1 Co. 14:4-5)[5], e são explicitamente ligadas à oração (1 Co. 14:14-17). Isto levanta um problema, no entanto, o versículo catorze torna claro que a pessoa com o dom de línguas, mas sem o dom de interpretação não entende o que diz[6]. Como então elas podem edificar? Isto não foi revelado a nós, mas aquele que fala em línguas edifica-se a si mesmo (1 Co. 14:4)[7]. Um exemplo na experiência moderna sugere uma maneira em que isso pode ocorrer. L. Christenson cita a experiência de uma mulher que estava ficando desanimada com a prática de falar em línguas:

Esta língua estranha não estava contribuindo em nada para mim. Mas, aos poucos, tomei conhecimento de que os meus pensamentos mudaram, quando eu deixei de pensar em mim mesma a nas minhas obrigações diárias, para pensar em Deus, sua grandeza e seu amor pelo homem. Minhas atividades cotidianas passaram a ser realmente realizadas para Seu serviço, e a presença de Cristo estava mais perto de mim a cada dia. Sempre tentei viver a minha vida como um serviço a Deus a estar perto de Cristo, mas isso exigia um esforço. Agora isto vem naturalmente, quase sem esforço. Agora parece que Deus está fazendo essas coisas para mim. Não posso levar qualquer que seja o crédito por esta mudança. Toda a glória deve ser para Deus.[8]

Nós comumente pensamos sobre edificação em termos de aumento do conhecimento, mas é evidente a partir de 1 Coríntios 14:4,13,14, que isso nem sempre é o caso. Há edificação que ocorre fora da compreensão que está além do uso da mente. Edificação significa crescimento na proximidade com Deus e em obediência a ele, bem como crescimento no conhecimento. Quer entendamos ou não, as línguas eram um dom de Deus, e ele declarou que pelo menos um dos propósitos desse dom sempre foi o de edificar. A interpretação da edificação pessoal adquirida a partir do falar em línguas, era para ser entendida à igreja. O versículo doze é suficiente e usual para justificar e estender o propósito de edificação para toda lista de dons espirituais. Aqueles que estão desejosos de dons espirituais busquem a edificação da igreja.

Então, se os dons são para a edificação, logo o propósito válido deles não se limitou ao período de fundação da igreja. Certamente, a edificação é importante em que estabelece as bases da fundação, mas também certamente não se limita ao período fundacional. Nunca haverá um momento em que a edificação não seja importante para a vida individual do cristão ou para a igreja, até que todos os santos estejam de pé diante do trono de Deus. Na verdade, a própria palavra “edificação” sugere o que é construído sobre a fundação, em vez de a própria fundação[9]. Isto é muito claro em 1 Coríntios 3:10 ss., quando Paulo declara haver lançado fundamento (que é Jesus Cristo) em Corinto e outros edificaram sobre este fundamento. Para “construir sobre” (poinodoméo) em 3:10 é a mesma raiz da palavra usada no capítulo quatorze (onodoméo) e traduzida como “edificar”. Edificação é um propósito positivo dos dons espirituais, que não precisamos assumir como tendo desaparecido uma vez concluído o cânon das Escrituras, encerrando, assim, o período fundacional.

Um segundo propósito para os dons de revelação que é estabelecido em 1 Coríntios 14 é seu uso no culto. As línguas são para o uso na oração (14:14-15), e isso pode ser feito em público liderando o culto, além de ser um método para se render graças a Deus[10]. No entanto, tal oração deve ser interpretada de forma que o restante da congregação participe. Mais tarde Paulo fala da sua reunião para o culto (14:26ss.)[11], onde cada pessoa tem algo para contribuir para o desenvolvimento da adoração coletiva, quer se trate de um salmo, um ensinamento, uma revelação, uma língua ou uma interpretação. Eles são trazidos de tal forma que edificam o povo de Deus. Assim, todos os dons mencionados aqui têm um papel de adoração no culto e como o culto não cessou com a conclusão da fundação podemos certamente estabelecer que este propósito dos dons ainda deva ser exercido hoje.

Ao examinar estas passagens da Escritura notamos que os dons não foram negados, ao contrário, foi afirmado que os dons de revelação tinham um propósito fundacional, embora também tenhamos demonstrado que não há base para afirmar que esta era toda sua finalidade. A única exceção a isso seriam apóstolos, que pelo fato de serem tão intimamente ligados com a fundação da igreja pela sua comissão, a função específica do dom do apostolado teve de desaparecer uma vez que a fundação foi implantada. No entanto, os outros dons, embora úteis na definição dessa fundação, não foram tão intimamente relacionados à ela. Tem sido demonstrado que eles tinham outros fins com valor permanente para o dia de hoje e mais além.




Notas:
[1] BAYNE, Paul. An Exposition of Ephesians. Sovereign Grace Publishers, 1959, 2:20; CALVIN, John. The Epistles of Paul the Apostle to the Galatians, Ephesians, Philipians and Colossians, eds. TORRANCE, D. W.; TORRANCE, T. F., trans. PARKER, T. H. L., Vol. IX, Calvin’s Commentaries. Grand Rapids: Eerdmans, 1972, Eph.2:20.
[2] CHANTRY, Walter J. Signs of the Apostles. Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1973, p.39.
[3] BAYNE, Ef.2:21.
[4] Omerly, pp.70,75.
[5] MORRIS, L. The First Epistles  of Paul to the Corinthians, The Tyndale New Testament Commentaries. Grand Rapids: Eerdmans, 1960, 14:4-5.
[6] A possibilidade de quem fala em línguas não entender o que ele diz é rejeitado por Charles Hodge, alegando que outras considerações exigem que quem fala em línguas esteja faltando outras línguas conhecidas para si próprio, em An Exposition of the First Epistle to the Corinthians. New York: Robert Carter & Brothers, 1857, 14:13-14. Ele interpreta o versículo 13 para dizer que quem fala (ora) em língua desconhecida ore com a intenção de que ele possa interpretar a oração. Esta interpretação do versículo não é aceitável no contexto, exigindo tensa interpretação dum certo número de versículos relacionados. O versículo 14 tem ser interpretado como dizendo que as coisas que o falante compreende não são de benefício algum para ninguém. O versículo 15 deve ser interpretado de uma forma que perde completamente a força levemente disjuntiva da conjunção dé. Além disso, um sentido expandido é colocado mediante "orarei com o espírito, mas também orarei com entendimento", que tem de ser interpretado com, eu orarei de tal maneira que a minha mente também esteja dando frutos, fornecendo orações compreensíveis para aqueles que o rodeiam. Além disso, a inclusão de interpretação como um dom separado nas várias listas mencionadas no NT desafia este ponto de vista, porque quem fala em línguas sempre entendeu o que estava dizendo, então o falar em línguas e a interpretação de línguas seriam dons idênticos.
[7] Reformed Presbyterian Church, Evangelical Synod, Minutes of the 149th General Synod (May, 1971), p.95.
[8] Speaking in Tongues and Its Significance for the Church. Minneapolis: Bethany Fellowship, 1968, p.76.
[9] THAYER, J. H. A Greek-English Lexicon of the New Testament. Corrected ed.: New York: Harper & Brothers, 1889, pp.439-440.
[10] Morris, 1 Co. 14:14-17.
[11] GROSHEIDE, F. W. Commentary on the First Epistle to the Corinthians, Vol. VII of The New International Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 1968, 14:26ss.; Morris, 1 Co. 14:26.

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Extraído de:
CODLING, DON. Sola Scriptura e os Dons de Revelação. Natal, RN: Editora Carisma, 2016, p.149-156.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Nº 39



DONS REVELACIONAIS NÃO SÃO UNICAMENTE FUNDACIONAIS
por Don Codling

O problema em vincular os dons revelacionais a um papel fundacional do domínio de Cristo é que isso aponta apenas para uma verdade parcial. Há pelo menos quatro fatores demonstrando de forma negativa que estes dons, como um conjunto, não podem ser limitados a um período de fundação. Em primeiro lugar, sua universalidade na igreja não se encaixa com uma função puramente fundacional. Em segundo, as limitações impostas sobre seu exercício são incompatíveis com o ponto de vista deles como fundacionais. Em terceiro lugar, mesmo os trechos bíblicos usados para mostrar a natureza fundacional dos dons não fazem qualquer alegação de que esta é a sua única função. Por último, não há evidências convincentes de que estes dons simplesmente serviram como um substituto necessário para o Novo Testamento até este ser concluído. Uma vez que estas considerações negativas têm sido desenvolvidas, será possível prosseguir a uma declaração positiva do lugar que os dons realmente ocupam em relação ao reino de nosso Senhor.

Os dons são universais na igreja

O primeiro comentário negativo sobre a teoria de que os dons foram puramente fundacionais ergue-se fora da universalidade da distribuição destes dons na igreja do Novo Testamento. Na exegese das passagens de Atos que descrevem as várias recepções do Espírito, um dos pontos observados foi o de que em cada incidente toda a comunidade recebeu o Espírito Santo e seus dons[1]. É evidente a partir de Atos 2:38 que Pedro antecipou que aqueles convertidos em Pentecostes também receberiam o Espírito. As perguntas de Paulo para os discípulos de Éfeso sugerem que ele pensava ser absolutamente normal que crentes deveriam receber o Espírito com o acompanhamento de dons. Foram feitas várias referências em outras passagens consideradas, demonstrando ter ele confiadamente presumido que os leitores das cartas apostólicas estariam familiarizados com as manifestações de poder do Espírito na manifestação daqueles dons. Em 1Coríntios 12-14, é muito claro que a maioria dos membros da Igreja de Corinto, senão todos, recebeu dons espirituais, e muitos deles possuíam os chamados dons de revelação. Neste sentido, será que estamos tentando abranger toda a geração apostólica da igreja na obra de fundação do reino de Cristo? Eu penso ser difícil incluir toda a primeira geração da igreja na obra de fundação.

O uso dos dons não pode ser considerado como fundacional no sentido de ser parte da vitória de Cristo sobre Satanás, porque aquela vitória já foi ganha e o exercício dos dons pode ser apenas parte da aplicação do triunfo de Cristo. Nem pode toda a geração apostólica ser parte direta do testemunho do Senhor. Se assim fosse, referências que declaram que a igreja foi construída sobre o fundamento de um grupo restrito e limitado, como os apóstolos e os profetas em Efésios 2:20, seriam absolutamente inúteis. Mas vamos chamar o limitado grupo que a Bíblia descreve como grupo fundacional, de círculo apostólico. Então, se os dons de revelação, em geral, eram apenas fundacionais, o seu papel só poderia ter sido para autenticar o testemunho do círculo apostólico. Mas que relação observável estava lá entre este grupo limitado e o amplo exercício dos dons? É passada a credibilidade de que os Apóstolos estavam envolvidos na transmissão de dons espirituais para praticamente todo cristão na geração apostólica. Seria possível que os dons fossem todos conferidos por intermédio dos apóstolos e de um círculo restrito de homens associados com eles?

O problema é que enquanto vários grupos (como profetas, Ef. 2;20; e anciãos, At. 15:2) foram associados com os apóstolos em diferentes capacidades, não há indicação bíblica de um grupo em particular que tenha sido utilizado por Deus na concessão de dons espirituais. Com efeito, a evidência bíblica não mostra nenhum padrão particular, muito embora seja verdade que em diversas ocasiões os apóstolos funcionaram como agentes de Deus com este propósito. Por outro lado, também é verdade que em diferentes pontos no Antigo Testamento os dons foram recebidos por meio do ministério de um profeta (Dt. 34:9, 1Rs. 19:16). Às vezes outros homens foram agentes na concessão do Espírito mediante a imposição das mãos, como ilustrado em Atos 9:17-18. Ainda em outras oportunidades, não havia nenhum agente humano envolvido (Êx. 3:1-4; Is. 6:17; At. 2:1-4; 10:44), portanto, o único padrão claro é que Deus concedeu seus dons para aqueles a quem escolheu, alguns deles espalhados no Antigo Testamento, bem como por toda a Igreja do Novo Testamento. Em sua sabedoria, o Senhor usou agentes quando se agradou em fazê-lo, mas não em todos os momentos. Pode ser alegado que no Novo Testamento o padrão exigido era a imposição de mãos, como o Pentecostes e os eventos na casa de Cornélio marcando as instâncias iniciais excepcionais para judeus e gentios. No entanto, isso poderia ser aceitável se não fosse a evidência do Antigo Testamento demonstrando que, muito antes do Pentecostes, os dons do Espírito foram conferidos com ou sem a imposição de mãos. Assim, não há nenhuma razão discernível para dizer que a nova aliança implicou uma nova mudança nesta prática.

Uma outra possível conexão do exercício dos dons de revelação com o círculo apostólico seria a limitação do exercício dos dons aos tempos e lugares onde o testemunho do círculo apostólico estava sendo exercido. No entanto, a universalidade do exercício dos dons (em toda a igreja e, de acordo com o padrão descrito em 1Coríntios pelo menos, sempre que a igreja se reunia para o culto) confronta firmemente contra essa possibilidade. Fica então uma pergunta: como é que a média da segunda geração de cristãos em Corinto no tempo de Paulo se diferenciaria do cristão de hoje na sua relação com o reino de Cristo? Se o seu trabalho foi fundamental, porque o trabalho dos cristãos de hoje não seria?

A universalidade dos dons estabelece então um dilema: ou os dons não são exclusivamente fundacionais, ou não há qualquer base para declarar que a obra da fundação foi concluída. Em qualquer um dos casos, o argumento para a cessação dos dons perde força

Limitações estritas são colocadas no uso de dons de revelação

O segundo fator que desafia a teoria de que os dons de revelação são puramente fundacionais é a limitação colocada sobre a sua utilização. Contudo, o fato de se definir uma limitação não mostra conclusivamente que os dons não podem ser restringidos à obra da fundação, porque é certamente possível que um aspecto da fundação pudesse limitar outro aspecto. É importante destacar essa questão, sobretudo pelo fato de que normalmente se pensa na fundação como a estrutura básica que coloca limitações sobre tudo o que se segue.

As restrições à utilização de alguns dos dons (1Co. 14:26ss.) levanta questões sobre a ideia de que estes dons foram sendo exercidos como parte da obra de fundação e edificação da igreja. A revelação fundacional deve estabelecer um adequado padrão litúrgico, mas Paulo teve de escrever aos crentes de Corinto visando corrigir padrões errados de culto que foram sendo estabelecidos através do uso de dons de revelação. Não mais do que dois ou três profetas estariam falando nas reuniões (1Co. 14:29), bem como apenas dois ou três poderiam falar em línguas, mas somente com a operação de outro dom vinculado, o de interpretação de línguas. O fundamento que estava sendo posto antes de Paulo escrever aos coríntios deve ter sido insatisfatório. Isto é muito grave para toda a teoria em questão.

A questão não é simplesmente que pessoas dotadas com dons erraram. Isso por si só não levanta problemas. Mas se o seu erro está em sua obra fundacional passa a ser um problema gravíssimo. Pedro cometeu um erro em Antioquia (Gl. 2:11ss.), mas isso não é um problema, porquanto sua ação naquele tempo não fazia parte da fundação do Reino, embora tenha motivado uma santa reação de Paulo. No entanto, se Pedro tivesse cometido um erro na escrita de suas epístolas, certamente teria sido uma questão bastante séria.

Em Corinto, os cristãos estavam errando no exercício dos dons de revelação e ao corrigir-lhes Paulo não negou que os dons exercidos eram verdadeiramente espirituais. Portanto, se naquele contexto apostólico cada exercício dos dons de revelação era fundacional haveria conclusivamente uma falha na fundação em Corinto. Mas se a fundação foi inconsistente lá, talvez também tenha sido noutros locais Uma vez se admitindo que a fundação pode ser imperfeita, é difícil evitar a conclusão dos teólogos liberais de que a Bíblia também seja.

Ao escrever para corrigir os coríntios, Paulo fez uma distinção muito clara entre a mensagem apostólica e as Escrituras por um lado, que foram inegavelmente fundacionais, e os dons revelacionais, de outro. Com efeito, em nenhum lugar Paulo ou qualquer outro apóstolo disse às pessoas para limitar a sua leitura das Escrituras. Na verdade os judeus de Beréia foram elogiados por provar pelas Escrituras tudo quanto o próprio Paulo disse (At. 17:11). Os dons de revelação de Corinto têm um status secundário em comparação com a mensagem apostólica e a Bíblia. Portanto, o uso dos dons é regulado através do ensino apostólico e das Escrituras, enquanto que o uso da Bíblia, por outro lado, não tem restrições. O testemunho prévio dos apóstolos e das Escrituras formam o padrão pelo qual a igreja foi construída. O testemunho dos apóstolos culminando na Bíblia é que é fundamental. Assim sendo, embora seja possível.




Notas:
[1] BRUNER, Frederick Dale. A Theology of the Holy Spirit. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1970, p.159.

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Extraído de:
CODLING, DON. Sola Scriptura e os Dons de Revelação. Natal, RN: Editora Carisma, 2016, p.143-148.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Nº 37



UMA BASE DOUTRINÁRIA QUE INCLUA A CONTINUAÇÃO DOS DONS
por Don Codling

Tendo indicado que existe evidência positiva para a ocorrência de dons revelacionais, o próximo passo é esboçar uma teologia coesa e bíblica que admita sua presente existência. Nenhuma sistematização aceitável que inclua um lugar para dons revelacionais foi encontrada na preparação deste estudo. A mais próxima foi a de D. L. Gelpi, marcada principalmente por seus princípios sacramentais Católicos Romanos[1].

Para este esboço, iniciaremos aceitando as doutrinas cristãs básicas mantidas na Confissão de Westminster e seus Catecismos. Isso deve ser necessário para corrigir a parte itálica da CFW I:1: “foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade [...] foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo”.

Embora alguns argumentem que isto deveria ser aplicado apenas em tentativas de acrescentar ou alterar as Escrituras, parece claro que isso especifica a cessação da profecia[2]. No entanto, devemos notar que dois dos principais personagens na Assembleia de Westminster claramente criam na revelação contínua. George Gillespie escreveu:

E agora, tendo ocasião, eu tenho que dizer isto, para a glória de Deus, houve na Igreja da Escócia, antes do tempo da nossa primeira Reforma e depois da Reforma, em ambas as ocasiões tais homens extraordinários, que foram mais que pastores e mestres comuns, sim, santos profetas recebendo revelações extraordinárias de Deus e predizendo diversas coisas incomuns e acontecimentos notáveis, as quais por conseguinte se cumpriram pontualmente, para grande admiração de todos que conheciam os detalhes delas. Tais foram o mártir Sr. Wishart, o reformador Sr. Knox, também Sr. John Welsh, Sr. John Davidson, Sr. Robert Bruce, Sr. Alexander Simpson, Sr. Ferguson, e outros. Tomaria muito tempo fazer aqui uma narrativa de todos os detalhes, e há tantos deles que são estupendos que fornecer exemplos somente de alguns parece derrogar dos demais, mas se Deus me conceder oportunidade, considero que valerá a pena fazer uma coleção desses eventos; enquanto isso, embora tais profetas sejam extraordinários, e raramente suscitados na igreja, ainda tais existiram, ouso dizer, não somente na era apostólica, mas entre os nossos primeiros reformadores e outros [3].

Rutherford escreve de maneira similar. Segundo ele,

Há uma terceira categoria de revelação de alguns homens em particular que predisseram coisas futuras até mesmo após a finalização do cânon da Palavra tais como John Hus, Wycliffe, Lutero, que predisseram coisas futuras, e elas certamente aconteceram. E em nossa nação da Escócia, o Sr. George Wishart predisse que o Cardeal Beaton não sairia vivo pelos portões do Castelo de St. Andrews, mas que lhe sobreviria uma morte vergonhosa; e ele, Beaton, foi suspenso em cima da janela por meio da qual olhou para fora, quando viu Wishart queimando. John Knox predisse o enforcamento do Lord de Grange; Sr. John Davidson proferiu profecias conhecidas a muitos do reino, e diversos pastores santos e modestos na Inglaterra fizeram coisas semelhantes [4].

Quando dois ilustres líderes da Assembleia de Westminster mantiveram a visão de que a revelação especial continua, devemos ser bastante cautelosos sobre qualquer interpretação da Confissão que negue essa visão.

Além disso, como já vimos, tantos quantos mantém a crença de que a Confissão de Westminster “não abre espaço para qualquer tradição humana autoritativa ou nova revelação”[5], deve incluir premissas que não são baseadas nas Escrituras ou despreza alguns dos ensinamentos da Bíblia para apoiar sua visão. Isto significa que eles mesmos estão em conflito com o ensino da Confissão nas próprias palavras direcionadas a tantos quantos Gaffin se refere, fazendo a seguinte afirmação: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW I:6). A posição deles faz a Confissão ser autocontraditória neste assunto. É melhor compreender que a Confissão não está rejeitando revelações e tradições, mas qualquer adição à Escritura pela revelação e tradição.

Para evitar problemas, nós devemos ser claros sobre o que nós pretendemos ao dizer que o cânon da Escritura está fechado. Revelação canônica é aquela destinada para formar e tornar-se Bíblia e consiste na lista de livros que possuem revelação para toda a igreja em todos os tempos. Esta é a autoridade comprovada do nosso entendimento de Deus e seus caminhos para nós, “tudo quanto o homem deve crer a respeito de Deus, e o que Deus exige do homem”[6]. É suficiente “para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda boa obra” (2Tm.3:17). Nada mais é necessário para qualquer pessoa servir a Deus perfeitamente. Além disso, a lista está ligada aos apóstolos e à sua autoridade de tal maneira que, após a morte daqueles, nenhuma Escritura autorizada se fez necessária.

Talvez alguns objetem que toda a revelação é canônica, porque o cânon significa autoridade. Por exemplo, Richard Gaffin escreveu, “o cânon, afinal, não é apenas uma designação literária ou termo de catalogação. Ele evoca conotações de autoridade. O cânon é todo e qualquer lugar em que eu encontre a inspirada Palavra de Deus hoje. Se discursos inspirados continuam hoje, então, tal qual nosso cânon, a Escritura não está completa; não importa o quão elevado nós vemos de outra forma, a Bíblia é senão uma parte daquele cânon”[7]. Mas com tal definição, o cânon deixa de ter qualquer ligação com a Escritura, a menos que primeiramente se prove que todas as revelações de Deus são encontradas nas Escrituras. Temos visto que não é esse o caso. Assim como a autoridade, o cânon deve reter o sentido da lista de livros que compõem a Bíblia. A confusão entre esses dois sentidos é uma das falhas marcantes dos argumentos de que dons revelacionais cessaram com a finalização das Escrituras.

Dada essa definição do cânon como sendo a lista fechada dos livros autoritativos que formam a Bíblia, a primeira questão a ser encarada é a relação entre os dons revelacionais contínuos e a Bíblia. A relação não pode ser competitiva, mas de complementariedade. Em ambos os casos as revelações vêm da parte de um Deus verdadeiro, que não contradiz a si mesmo, e que estabeleceu seu pacto com o homem de forma fixa na Bíblia. Em vista da discussão do cânon da Escritura no capítulo dois, fica claro que qualquer revelação recebida hoje não deve fazer parte da revelação canônica. Uma nova revelação seria limitada à situação na qual foi dada. Isso não significa negar que esta seja autoritativa, de fato, são igualmente autênticas com alguma outra revelação. No entanto, autoridade e canonicidade não são coisas idênticas. Nada deve ser adicionado à revelação normativa do pacto que forma as Escrituras canônicas; mas dentro dos limites estabelecidos por essa revelação, a Palavra de Deus para os homens deve ainda vir por meio de dons revelacionais. Se assim vem, deve ser obedecida.

Isso implica que a Bíblia deve ser a primeira e primária fonte de onde os cristãos devem buscar informação e direção. Esse é o padrão que governa o relacionamento do homem com Deus dentro da aliança divina, ou em oposição a ela. Ainda se os dons de profecia fossem inegavelmente exercidos na sua igreja hoje, o cristão não poderia contar com informações por meio deles, para guia-lo em suas atividades ordinárias. Deus deve escolher dar tais governos através dos dons, mas a Bíblia é a fonte comum do cristão para informação sobre Deus e sua vontade. Os dons de Deus não foram designados para substituir a Bíblia de Deus.

A Bíblia indica que o exercício de dons revelacionais está intimamente ligado com a obra do reino de Cristo e enquanto eles estavam frequentemente sendo usados para governar as escolhas humanas nas áreas indiferentes, ou seja, aquelas em que um homem deve ter diversas possibilidades as quais não envolvam transgressão da lei canônica, apenas raramente é que tais governos seriam aplicáveis às atividades cotidianas dos negócios e da vida social dos homens. No entanto, os dons eram sempre usados para apontar o pecado do homem em tais áreas. O uso mais comum dos dons de governo era para direcionar homens em atividades específicas que se referem diretamente ao avanço do reino. Por outro lado, mesmo nessas questões, parece-nos claro que a orientação reveladora especial não era mantida como ordinária, mas extraordinária. Os cristãos imaginam o direcionamento da Escritura e a inteligência a qual os deu, não para contar com intervenção especial. Paulo planejou ir para a Ásia, até o Espírito de Deus impedir de fazê-lo (At.16:6). Embora Deus possa graciosamente dar direcionamento através de dons revelacionais, seu Espírito usualmente nos direciona através das Escrituras.

Os dons revelacionais são comunicados aos homens pelo Espírito Santo, no entanto, na história bíblica ele também concedeu dons a alguns homens que, aparentemente, não eram escolhidos, tais como Judas e Balaão. Porém, normalmente os dons seriam concedidos apenas aos regenerados. As Escrituras são muito claras em ensinar que todos os cristãos receberam o Espírito Santo[8].

Devemos dizer também que há apenas um único recebimento do Espírito Santo. 1Coríntios 12:13 afirma que todos os cristãos foram batizados no corpo de Cristo pelo Espírito Santo. O batismo “no” ou “com” o Espírito Santo é o começo da vida cristã[9]. Não é algo que virá posteriormente a uma pessoa que já foi atraída para Cristo pelo Espírito Santo. Contrário às afirmações de alguns[10], a linguagem usada é importante porque ele põe nosso pensar na direção correta. Quando seguimos o padrão bíblico ao afirmarmos que todo cristão foi batizado no Espírito Santo no instante em que ele ou ela nasceram de novo, então entenderemos que todo cristão têm a raiz dos dons espirituais, bem como da santificação. Assim, não há nenhuma tentação de superenfatizar o recebimento ou o desenvolvimento de algum dom espiritual. Isso é simplesmente parte do amadurecimento normal de um cristão, no qual alguns sobressaem numa coisa, enquanto outros, noutras, de acordo com o que são alimentos e equipados por Deus. Assim como uma criança pode crescer normalmente ou em capacidade, embora idealmente deva crescer em ambos, assim, um pequenino cristão deve amadurecer em ambas, santificação e capacidade para o ministério com poder, mas ele crescerá apenas ou principalmente, em apenas uma delas, para seu próprio prejuízo, bem como da igreja. No entanto, se a criança não nasceu, ela não cresceu em nenhum aspecto, quer falemos de nascimento natural ou espiritual.

Enquanto uma pessoa é batizada no Espírito Santo uma vez por todas, ele ou ela deve ser cheio do Espírito (At.4:31). Uma tentativa de explicação para isso é que cristãos pecaminosos vivem num nível mais baixo do que o batismo deles no Espírito possibilita-lhes[11]. Às vezes o Espírito vem sobre o cristão dramaticamente em sua obra santificadora num novo enchimento. Às vezes, também, vem com novo poder para fazer sua obra. Tais enchimentos não são marcas de uma cristandade superior, nem sequer necessariamente de progresso individual. Eles nada dizem sobre maturidade cristã em relação a outros cristãos. Os coríntios abundaram em dons espirituais, mas abundou também a crítica de Deus concernente a imaturidade espiritual deles! Os dons conferidos pelo Espírito Santo são uma santa verdade para ser usada com vistas à própria edificação e à igreja. Entretanto, como já foi dito, os mesmos estão sujeitos a testes e controles através das Escrituras.

Os dons revelacionais, e, de fato, todos os dons do Espírito, são bênção do reino de Jesus ao seu povo. Eles todos são manifestações de seu reino, evidência da presença deste, e essencialmente útil em sua edificação. Isso implica que eles existem apenas para a glória de Cristo. Tais homens, como Simão o mago (At.8), cujo desejo por tais dons era para sua própria honra, devem ser corrigidos e se necessário, removidos da igreja. Se alguém não usa um dom para edificar o povo de Deus, deve ser censurado.

Devemos igualmente considerar o fato de que na história bíblica o mais proeminente exercício dos dons ora considerados ocorreu nos tempos de maior fraqueza da igreja. Havia abundância de revelação verbal e milagres nos tempos de Moisés, quando Israel teve de ser libertado da escravidão e parecia que a fé em Deus havia sido em grande parte perdida. Novamente nos tempos de Elias e Eliseu nós vemos muitos milagres proeminentes, quando o povo de Deus estava caindo em adoração a Baal. No cativeiro nós vemos Deus trabalhando proeminentemente com Daniel e seus amigos, assim como com Ester. Então, no tempo da formação da igreja neotestamentária, o tempo de Cristo e dos apóstolos, Deus operou muitos milagres para a edificação de seu povo. Alguns têm sugerido que os milagres ocorrem onde há grande fé, mas quando vindo da Bíblia, em vez disso, acontecem onde há grande necessidade de fé. Quando Cristo enviou os apóstolos para pregar (Lucas 9) e mais tarde igualmente os setenta (Lucas 10), recomendou-lhes não tomar consigo proteção ou suprimento algum, mas a depender de Deus para prover-lhes por meio do povo a quem eles ministravam. Em Lucas 22:35-36, Jesus disse aos apóstolos que enquanto aprendiam acerca do poder de Deus que lhes provia apesar de qualquer coisa que fizessem, esse não seria o modo normal que ele os manteria. Depois disso, todos deveriam tomar seu dinheiro, suas roupas, sua comida e suas armas. O padrão normal é que eles trabalhem para sobreviver, não que eles dependam dos milagres para sua provisão. Cristo não estava dizendo-lhes que jamais realizaria milagres para eles, mas que não deveriam depender de milagres, visto que milagres eram a exceção e não a regra da vida cristã. Não deveria nos surpreender o fato de que há longos períodos com pequenas manifestações desses dons, nem vê-los aparecer no campo missionário ou nos tempos quando a igreja decaiu sobremaneira.

Há muitos dons listados em diferentes lugares no Antigo e Novo Testamentos. Não há razão para crer que as listas são exaustivas, e nem mesmo para crer que eles estão em operação a qualquer momento. Não há dom algum que o cristão deva imaginar possuir, nem que haja qualquer dom presumido como que a maioria dos cristãos possua. Os dons são dados por Deus por ministério do Espírito Santo segundo o seu propósito. Os cessacionistas erraram ao rejeitar os dons revelacionais em favor dos outros; os pentecostais erraram na direção oposta ao enfatizar milagres, profecias e línguas em detrimento do ensino, misericórdia, administração e tais dons. Enquanto cristãos são exortados a buscar os mais excelentes dons, não é garantido que eles receberão o dom especial de maior valor diante de seus olhos. O mais estimado dom para qualquer homem é o dom que Deus escolheu outorgar-lhe. Esses dons que parecem menos estimados são também necessários e será dada devida honra da maneira como são adequadamente exercidos (1Co.12:22ss). Apesar de Paulo estabelecer uma ordem de importância para determinados dons (1Co.12:28), é pecaminoso exaltar homens, ou os homens buscarem exaltação por causa de seus dons particulares. Na igreja de Cristo, aquele que a si mesmo se humilha, esse será exaltado. Os dons não devem ser a base para dividir os irmãos em classes.

Nossa ênfase como cristãos não deve estar em nossos dons, mas em nosso crescimento e maturidade em Cristo. Até nosso choro é “Senhor, santifica-me; eu não me importo com o recebimento de poder; eu preciso tornar-me mais santo”, portanto, enfatizar sobremodo os dons miraculosos é prejudicial para a vida cristã. Tão somente aumenta o orgulho, enquanto o amadurecimento é essencialmente uma questão de santificação. É possível termos dons miraculosos, mas ainda agir como uma criança gloriando-se nos dons, como a igreja dos coríntios.




Notas:
[1] GELPI, D. L. Pentecostalism. New York: Paulist Press, 1971.
[2] Veja o argumento em GAFFIN, Richard B. Jr., “A cessationist view”, Are miraculous gifts for today? Grand Rapids: Zondervan, 1996, p.338.
[3] GILLESPIE, George. A Treatise of Miscellany Questions. Edinburgh: Robert Ogle, and Oliver & Boyd, 1844, Cap.V, Sec.VII, p.30..
[4] RUTHERFORD, Samuel. A Survey of Spiritual Antichrist. Londres, 1648, p.42, conforme citada em PRINCE, Greg; DOHMS, Lyndon. A Reformation Discussion of Extraordinary Predictive Prophecy Subsequent to the Closing of the Canon of Scripture. Edmonton, AB: Still Waters Revival Books, 1998, p.12.
[5] GAFFIN, Richard B. Jr., “A cessationist view”, Are miraculous gifts for today?, p.339.
[6] Breve Catecismo de Westminster, 3.
[7] GAFFIN, Richard B. Jr., “A cessationist response to Douglas A. Oss”, Are miraculous gifts for today?, p.293-294.
[8] É também aceito por Pentecostais que defendem o batismo no Espírito Santo pelo menos logicamente como vindo após a conversão. Douglas Oss argumento que a real questão não é a terminologia, mas a substância, “a doutrina Pentecostal de um revestimento com o Espírito Santo e poder distinto da conversão”. Alguém talvez pergunte, se essa é a questão, porque ele não irá abandonar a terminologia que muitos acham antibíblica, e na qual, para dizer o mínimo, é bem aberta a ideia de que há dois tipos de cristãos? Pelo menos compeliria as pessoas a lidarem com a substância ao invés de lidarem com o rótulo.
[9] Nota do Blogger: Para conferir uma objeção à visão defendida por Don Codling, isto é, de que o batismo “no” ou “com” o Espírito Santo não se trata de um revestimento de poder distinto da prórpia regeneração espiritual, acesse: http://dadivaelouvor.blogspot.com.br/2016/05/torcendo-a-escritura-sobre-o-batismo-no-espirito.html
[10] OSS, Douglas A. “A Pentecostal/Charismatic response to C. Samuel Storms”, Are miraculous gifts for today, p.240-241.
[11] STOTT, J. R. W. The Baptism and Fullness of the Holy Spirit. Downers Grove, Ill. Intervarsity Press, 1971, p.34.

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Extraído de:
CODLING, Don. Sola Scriptura e os Dons de Revelação. Natal, RN: Editora Carisma, 2016, p.178-187.